
- Mãe, quando uma pessoa morre, os cach…
- Shhhhhhhhhhh… – fez minha mãe, me puxando os braços.
A minha pergunta seria a mais incrível do mundo. Por que ela me interrompeu? E quando saberei se os cachorros realmente choram quando as pessoas morrem? A dúvida surgiu ao ver o uivo de um vira-lata no portão da vizinha onde perdera a filha de alguns anos mais velha que eu e não sei do que. Eu tinha apenas quatro anos.
A minha lembrança daquele velório era vago. Lembro apenas da menina exposta numa mesa, coberta com um lenço e, ao seu lado, o ursinho de pelúcia que queria tanto quando era criança. Até pensei “se ela está morta, por que eles não dão o ursinho pra mim? Já que sou a única criança daqui”. Olhava para a menina por cima da mesa, por eu ser pequena. Para mim, apenas dormia, já que estava deitada e com um lençol… e por que não abraçava o ursinho? O semblante dela não era ruim. A morte não parecia ser tão ruim. Por que minha mãe não deixa eu perguntar sobre ela?
Horas antes de ir ao velório da menininha, ouvi minha mãe conversando com a minha tia, dizendo que alguém perdeu uma filha nova. Ou melhor, que “morreu”. Eu sabia, naquela época, que morrer era uma atitude ruim, segundo os grandes, mas o que era a morte eu realmente não sabia. Só soube depois, quando minha mãe impediu de prosseguir com a minha dúvida: a morte era um monstro feio que leva as pessoas sem ao menos avisar. E depois disso, tive medo dela. Tive medo de falar sobre ela porque, se a minha mãe me falou que falar dela a atraía, eu não quero morrer! Deve ser ruim, mas fazer o quê? Estou apenas seguindo os conselhos de minha mãe.
No funeral, as pessoas choravam. Olhava para elas e descobri que a morte também é triste. Danada! Por que não disse que ia aparecer? Por que a levou tão nova?
Não me lembro a quanto tempo que olhei para a menina. Uma hora? Cinco minutos? Tampouco sabia seu nome e sabe lá se minha mãe foi apenas para ver o que aconteceu. E mesmo o tempo fosse tão curto, eu não conseguia vê-la com os olhos dos adultos. Era natural como se fosse o nascer ou o por do sol. A minha cachorrinha, a Sarita, morreu. O meu avô, cujo pai da minha mãe que nunca conheci também morreu. Minha mãe também se lamentava pela morte de sua planta. Ela mata baratas! Meu pai também perdeu amigos e parentes. Então, isso não é uma coisa comum? Por que elas ainda choram, sendo que a morte vem para todos?
O padrasto da minha mãe, por exemplo, teve quatro derrames. Quando o vi, na cama, aquele homem ativo, honesto e bom, deitado e sem nenhum movimento na fala, senti uma pena enorme.
- Por que ele não morreu?
- Cala a boca, Tatiane! Não vê que está “desejando o mal” pra ele?
- Por quê besteira? Não seria melhor do que vê-lo sofrendo em cima dessa cama?
Ela se calou.
Durante minha infancia medonha pela morte e pela adolescencia a adorando, descobri aos poucos que a morte não é nada mais e nada menos que um processo da vida. Descobri isso com um tio meu, que morreu de AIDS quando eu tinha apenas 13 anos de idade:
- As pessoas que tem medo da morte é porque nunca viveram – disse ele, uma vez à minha mãe.
A morte de meu tio foi um baque sem tamanho à minha mãe. Sofreu, se sentiu culpada, culpava… foi um inferno psicológico perder o irmão caçula e seu melhor amigo.
Anos mais tarde, foi ela quem adoeceu, devido ao câncer. E estava eu diante de uma suposta perda.
Perda?
Minha mãe era evangelica e sua religião jamais falara que a morte era uma coisa ruim. Os budistas, os espíritas, os católicos, os adventistas, os mórmons, os muçulmanos… nenhum deles citam a morte como o que aprendi na infancia.
Foi quando minha mãe me veio com uma confissão, isso anos depois quando ela me impedira de perguntar sobre a dor dos cães ao perder os donos para a morte:
- Filha, tenho medo de morrer.
Olhei naquele instante para ela com um olhar sério. Ela me olhava tristemente. Eu já tinha a absoluta certeza que, no estado que ela estava, ela ia partir brevemente. Aquilo me machucava, porém me acalmava ao mesmo tempo.
- Mãe, quem criou a morte?
- Deus?
- E se a morte fosse ruim, Deus a criaria?
Minha mãe teve seu semblante modificado. Olhou para o lado, para a cima e me olhou do tipo “você está certa!”. Oras, como pode uma menina que, com apenas vinte anos solta uma pergunta dessa forma. E obviamente, com respostas suncintas.
Assim, voltei a ver televisão e percebi que, depois disso, o que minha mãe achava aquela “monstra” ruim e severa, não passava de apenas um processo de colhimento que o Senhor faz ao passar em Seu jardim. E por que, não, colher as suas flores preferidas para enfeitar a Sua sala ou a Sua estante e deixar o ambiente mais agradável?
E assim, o Senhor a colheu. Chorei, mas um pouco de alivio porque ela parou de sofrer. Da mesma forma que eu olhava a minha mãe naquele caixão, era a minha visão quando eu tinha quatro anos quando eu olhava para aquela menina morta.
- Está apenas dormindo. – pensei.